Cotas Raciais: a ação afirmativa que segrega os segregados
Há muito que este
debate gera amplas discussões em nossa sociedade. O tema é polêmico, pois na
verdade, quem tem mais propriedade para falar de racismo e de preconceito é
quem sente as suas consequências na pele. Não obstante, não podemos nos omitir
ao fato de que a política social de inclusão por meio de cotas raciais, medida
de ação afirmativa criada para corrigir distorções históricas de injustiça social
contra negros e indígenas no Brasil, causa também, por outro lado, a falta de
reparação histórica e social a outro elemento humano constitutivo da nação
brasileira: o branco pobre.
A história
pouco mostra. Mas as condições em que vivia o branco pobre e livre ao longo da nossa
nunca foram lá das melhores. Principalmente durante o período colonial e
imperial do Brasil. Pois ao contrário do escravo negro, que apesar das
condições desumanas de trabalho e maus tratos, este era mais bem alimentado nas
fazendas por seus senhores do que o
branco “livre” e pobre, que vivia excluído, passando fome, discriminado e marginalizado
socialmente. Uma discriminação que acontece não pela cor da sua pele, porém por
dois motivos: o primeiro era por sua condição de brasileiro, pois quem tinha
sangue mestiço sofria discriminação pelos portugueses legítimos. O segundo era
por sua condição social. Pois a essência econômica da nossa sociedade sempre
foi a concentração da riqueza nas mãos de uma minoria privilegiada. Uma situação bem retratada no livro Casa
Grande & Senzala do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre e que tem
consequências até os dias de hoje.
Percebemos
então neste contexto dois grupos marginalizados, que apesar de estarem em situações
antagônicas, compartilham do mesmo problema de exclusão e injustiça social por
parte das elites políticas e econômicas, que detêm e controlam a máquina
estatal e a riqueza nacional do país. Um quadro crítico que se acentua com o
fim da escravidão. Pois os negros agora expulsos
das fazendas somaram-se aos milhares de brancos pobres que viviam nas ruas dos
centros urbanos ou em pequenos lugarejos afastados, amontoando-se nessas áreas
e vindo a formar as futuras favelas
brasileiras.
O quadro
social que compõe o cenário brasileiro começou a ser formado nesse
momento. Onde encontramos agora o branco
pobre e o negro liberto sem emprego, escola, terra e moradia. Situação agravada
pela substituição do trabalhador escravo por imigrantes europeus trazidos para ocupar estas vagas de trabalho. Uma
medida incentivada pelo governo brasileiro, que visava além da trazer ao país
mão-de-obra especializada para substituir o negro nas fazendas e para o
trabalho nas indústrias, ter um caráter de eugenia. Ou seja, estimular o
embraquecimento do país.
Portanto, é
sobre este ponto de vista que o sistema de cotas raciais, apesar do seu caráter
provedor de inclusão socioeconômico, é um fator contraditório e motivador de
exclusão de outro grupo social. Pois apesar
da escravidão estar inserida na história do negro, negros e brancos pobres viveram
e compartilharam sempre de condições precárias de vida na sociedade brasileira.
Sendo o negro um escravo do sistema de produção e o branco pobre servo da coroa e do império brasileiro. Ambos vivendo como seres cativos das elites
dominantes da economia e da politica nacional.
Dessa forma
fica claro que qualquer atitude política que for tomada com intenção de
promover reparação histórica e proporcionar a inclusão socioeconômica desses
grupos, ela deve ter como objeto de ação o social e não racial. Pois é pelo
fator social, que ela contemplará negros e brancos pobres, elementos sempre
deixados de fora das conquistas econômicas do país, tendo assim uma abrangência
muito maior e um impacto humanizador mais coerente e racional, satisfazendo a
todos. Diferentemente da questão indígena,
que mercê todo um trato especial, pois esse sim, dentre as três raças, foi a
mais prejudicada em todos os aspectos que se possa imaginar. Para este, toda
política governamental de inclusão nunca será suficientemente compensatória. A
nação sempre estará em débito.