quinta-feira, 8 de junho de 2017

Cotas Raciais: a ação afirmativa  que segrega os segregados

Há muito que este debate gera amplas discussões em nossa sociedade. O tema é polêmico, pois na verdade, quem tem mais propriedade para falar de racismo e de preconceito é quem sente as suas consequências na pele. Não obstante, não podemos nos omitir ao fato de que a política social de inclusão por meio de cotas raciais, medida de ação afirmativa criada para corrigir distorções históricas de injustiça social contra negros e indígenas no Brasil, causa também, por outro lado, a falta de reparação histórica e social a outro elemento humano constitutivo da nação brasileira: o branco pobre.
A história pouco mostra. Mas as condições em que vivia o branco pobre e livre ao longo da nossa nunca foram lá das melhores. Principalmente durante o período colonial e imperial do Brasil. Pois ao contrário do escravo negro, que apesar das condições desumanas de trabalho e maus tratos, este era mais bem alimentado nas fazendas  por seus senhores do que o branco “livre” e pobre, que vivia excluído, passando fome, discriminado e marginalizado socialmente. Uma discriminação que acontece não pela cor da sua pele, porém por dois motivos: o primeiro era por sua condição de brasileiro, pois quem tinha sangue mestiço sofria discriminação pelos portugueses legítimos. O segundo era por sua condição social. Pois a essência econômica da nossa sociedade sempre foi a concentração da riqueza nas mãos de uma minoria privilegiada.  Uma situação bem retratada no livro Casa Grande & Senzala do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre e que tem consequências até os dias de hoje.
Percebemos então neste contexto dois grupos marginalizados, que apesar de estarem em situações antagônicas, compartilham do mesmo problema de exclusão e injustiça social por parte das elites políticas e econômicas, que detêm e controlam a máquina estatal e a riqueza nacional do país. Um quadro crítico que se acentua com o fim da escravidão. Pois  os negros agora expulsos das fazendas somaram-se aos milhares de brancos pobres que viviam nas ruas dos centros urbanos ou em pequenos lugarejos afastados, amontoando-se nessas áreas e  vindo a formar as futuras favelas brasileiras.
O quadro social que compõe o cenário brasileiro começou a ser formado nesse momento.  Onde encontramos agora o branco pobre e o negro liberto sem emprego, escola, terra e moradia. Situação agravada pela substituição do trabalhador escravo por imigrantes europeus trazidos  para ocupar estas vagas de trabalho. Uma medida incentivada pelo governo brasileiro, que visava além da trazer ao país mão-de-obra especializada para substituir o negro nas fazendas e para o trabalho nas indústrias, ter um caráter de eugenia. Ou seja, estimular o embraquecimento do país.
Portanto, é sobre este ponto de vista que o sistema de cotas raciais, apesar do seu caráter provedor de inclusão socioeconômico, é um fator contraditório e motivador de exclusão de outro grupo social. Pois  apesar da escravidão estar inserida na história do negro, negros e brancos pobres viveram e compartilharam sempre de condições precárias de vida na sociedade brasileira. Sendo o negro um escravo do sistema de produção e o branco pobre  servo da coroa e do império brasileiro.  Ambos vivendo como seres cativos das elites dominantes da economia e da politica nacional.

Dessa forma fica claro que qualquer atitude política que for tomada com intenção de promover reparação histórica e proporcionar a inclusão socioeconômica desses grupos, ela deve ter como objeto de ação o social e não racial. Pois é pelo fator social, que ela contemplará negros e brancos pobres, elementos sempre deixados de fora das conquistas econômicas do país, tendo assim uma abrangência muito maior e um impacto humanizador mais coerente e racional, satisfazendo a todos.  Diferentemente da questão indígena, que mercê todo um trato especial, pois esse sim, dentre as três raças, foi a mais prejudicada em todos os aspectos que se possa imaginar. Para este, toda política governamental de inclusão nunca será suficientemente compensatória. A nação sempre estará em débito.

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